ELE AINDA NÃO SABE



Em pé na fila do banco, contas a pagar, coça a cabeça de onde nas laterais despontam fios prateados que em franca batalha com os cansados, mas resistentes fios pretos, tentam, rumo ao topo conquistar cada vez mais uma área maior. Ontem, ainda menino, pé descalço, chutava cabeça de boneca, papel, lata e tudo mais que pudesse servir de bola, nem sonhava com o dia em que receberia a notícia que mudaria seus dias para sempre. Logo o primeiro encontro, ele e ela, pela primeira vez frente a frente. Ele sabia, seria o primeiro amor da vida dela, ela, ainda não tinha ideia da imensidão do amor dele por ela.

Ele ainda não sabe, mas já não é o mesmo desde que recebera a notícia, você vai ser papai, num instante tudo mudou, seu mundo girou, como aquele peão que ganhou forma pelas mãos talentosas do vô, e que hoje está esquecido em alguma caixa no porão. Lugar que logo ele vai revisitar, recanto de uma memória física. Ali, saudade tem cheiro, tem forma e poeira também. A primeira lembrança acerta bem seu dedo mindinho - o mesmo que nunca se entendeu com as quinas dos móveis da antiga casa, curioso, agora que é gente grande, o dedinho nunca mais entendeu de brigar com os espaços - ali está, na recordação que lhe acerta o pé, seu nome em Arial Black, esculpido na memória da infância, gravado pra sempre na madeira do taco que por pouco escapou de ser só taco mesmo.

Ele ainda não se deu conta, mas já não é o mesmo jovem adulto que anos atrás disse o sim mais importante da sua vida. Quando aceitou como esposa aquela que muito antes dele já havia dito o sim que os conduziu até o nascimento do dia mais especial da sua vida. E que muito em breve na escala da felicidade, atingiria o infinito, isso ele também não sabia, ainda. E não tardará a compreender, será quando ouvir pela primeira vez o choro que o fará chorar também, mas de genuíno contentamento. Ele então fará parte do clube, receberá tapinhas de felicitações, sem perceber estará ostentando um charuto vindo não se sabe de onde, e terá descoberto o amor maior do mundo, transcendente, de pai para filha.

Ele ainda não consegue explicar, como pode uma pessoa ser tão pequenina, ele não lembrava de já ter tido aquele tamaninho, achava que já havia nascido chutando cabeça de boneca, papel, lata e tudo mais que pudesse servir de bola. Como pode um ser tão pequenino ser responsável por tanto, apenas por existir, sensações que jamais havia experimentado. O sorriso largo esconderá a preocupação, o filho será agora também pai, o neto dobrará a aposta, vô, o senhor agora é bi. O menino que tinha medo das inúmeras possibilidades que o escuro escondia, terá pela frente os escancarados desafios da vida.

Ele ainda não entende, como pode ao mesmo tempo o súdito ser também rei, mistérios que ela divide com ele todos os dias antes de cair adormecida no colo paterno. E de repente, o que antes era só uma gravata, no mesmo laço une passado, presente e futuro em dois corações que se descobrem batendo no mesmo compasso. Ela tem o sorriso aberto dele, o olhar franco e terno daquela que em pé recostada no batente da porta, admira a cena e questiona, como pode duas crianças em idades completamente diferentes falarem a mesma língua? É que em algum lugar do caminho quando ele era o único com a certeza, vai ser menina, pai e filha estabeleceram uma linguagem só deles.

Ele ainda não sabe, mas as mãos que hoje ele conduz, serão as mesmas que um dia irão sustentá-lo quando seus pés não puderem mais fazê-lo como agora.  Ele ainda não sabe, mas as mãos que hoje se agarram as dele em busca de segurança, serão as mesmas que um dia ele procurará em busca da mesma fortaleza que hoje ele representa pra ela. Ele ainda não sabe, mas o amor que pai e filha hoje compartilham, será a ponte que o ligará a lembrança do olhar que torna memorável todas as recordações que o tempo se encarrega aos poucos de apagar. Ele ainda não sabe, mas o amor que pai e filha hoje compartilham, será a ponte que o ligará ao olhar terno da mulher que foi o seu primeiro e grande amor.

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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