E MESMO ASSIM, OBRIGADA POR TER SIDO VOCÊ

De vez em quando acontece de sermos surpreendidos por alguém que vai embora, deixando pra trás um monocromático cinza, um desbotado tom no que antes tinha a cor da amizade. Este alguém, importante pra nós, simplesmente abriu a porta e se foi, silenciosamente, deixando o vazio das promessas não cumpridas. Sim, este mesmo alguém que foi importante pra você, que segurou sua mão em momentos tempestuosos, que caminhou ao seu lado por uma parte do caminho, e quando este pareceu intransponível, emprestou-lhe ânimo e coragem. Sim, este mesmo alguém que chegou sem alarde e que do mesmo jeito partiu, quando então você não mais o reconheceu – não de imediato. E com severas restrições o amigo e por vezes irmão, se transformou em um estranho.

E mesmo assim, a simples menção do seu nome fará ainda por muito tempo com que seus olhos brilhem, afinal, vocês fizeram coisas incríveis juntos, mas aquele sorriso que surgia inconsciente mediante a mais simples lembrança, aquele sorriso não resistiu a ação do tempo. E quando mais nenhuma palavra é proferida, quando o diálogo deixou de existir, velhos vocábulos voltaram para suas casas – e o rude, antes uma expressão de carinho, retoma sua antiga forma, é áspero. A cumplicidade, quando posta à prova rendeu-se aos espinhos do caminho e diante deles caiu. Contudo, a velha premissa seguiu verdadeira, “constituirá falta grave a traição de um amigo, porém, muito mais e imperdoável será desconfiar-se dele”. E incontinente tento seguir firme no propósito de não quebrar essa promessa.

A partir deste desencontro de almas, a vida que havia recuperado seu brilho, foi novamente e por um breve momento oculta pela densa opacidade. E mesmo não desejando mais domar as palavras, aprendi que entre elas há aquelas que se transformam e desaguam em outros versos. A vida seguiu e sorriu de novo.

E hoje, mais ainda do que ontem somos diferentes, mas não tão distantes do que éramos há alguns anos, sabemos hoje como lá atrás que o amor é maior do que a própria vida, eu sinto esse amor, você hoje vive por ele. Nós amadurecemos, cada uma a sua maneira ou ao modo que a vida nos permitiu, e entendemos que o que nos faz feliz é a entrega que proporciona ao outro uma vida de autêntica felicidade.

Não nos faltam os contrastes, eles só não nos sustentam como antes. Mas sabe, sinto-me aliviada pela oportunidade de dividir com os bons amigos que a vida permitiu que ficassem, o gosto por prazeres simples: bons filmes, sentar-se à mesa e dividir a refeição, um pedaço de torta – e mesmo que este tenha como tema a insígnia do time rival, vale e muito. E mais do que imensamente feliz, sou grata a eles por dividirem comigo a fatia do mundo deles que falta ao meu, e por me fazerem companhia mesmo quando eu menos mereço.

E como sempre foi, busco de todas as formas demonstrar o quanto sou agradecida a eles e mesmo que eu caminhe até as estrelas, sequer me aproximarei o suficiente de como me sinto. Mas não deixo de sorrir sempre que recordo dos momentos em que eles me enxergaram melhor do sou, reconhecendo em mim qualidades que eu mesma não sabia possuir. Errei repetidas vezes, ainda erro, e num espírito de reciprocidade estes amigos que insistiram em permanecer ensinaram-me que o perdão pode assumir inesperadas formas, mas que no coração onde a amizade floresce transbordando amor, ele não é necessário.

Ainda conservo aqueles mesmos medos bobos, mesmo depois de sobreviver as situações que eu mais temia. Outras tantas manias estranhas eu acrescentei as antigas. Mas agora, tenho receio de deixar que meu lado mais fraco venha a superfície, num segundo tudo pode mudar. Ainda tenho dias de melancolia e solidão, momentos em que a janela da memória teima em me levar até você, mas é em mim mesma e em minhas esperanças que busco a paz. E se importa, eu não estou sozinha, e ... bom, uma amiga me ensinou que independente do que tenha acontecido e das perguntas que estão soltas por aí, a resposta sempre será o amor, então, não tenha medo. Ah, e mesmo assim, obrigada por ter sido você. E também muito obrigada por ainda serem vocês.
NÃO IMPORTA A PERGUNTA, A RESPOSTA SEMPRE SERÁ O AMOR
 Magalhães, R. via Silva, A. C.

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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