ELA SÓ QUER SER LIVRE

Ela precisava entender aquele contexto paradoxal no qual se metera, do seu velho mundo restara apenas a rotina que vorazmente consumia as horas do seu dia. Ela já havia se afogado algumas vezes, portanto, não queria mergulhar novamente, tinha medo, ao mesmo tempo não conseguia se afastar, tinha desejos. Mas a mulher com o coração de menina, revestida do poder que lhe conferia a ousadia de ser quem desejava, apenas não entendia como os outros podiam não entender que ela se reconhecia na face daqueles que como ela imputavam a si mesmos a missão de ser para outro a parte do mundo que a eles faltava.

FAÇA MAIS DO QUE EXISTIR

Ela apenas não entendia como os outros podiam não entender, que ela se resguardava da maldade em sentenças que negavam o imponderável. A verdade é que ela apenas não suporta as pessoas que somente existem, que não se arriscam, que não sabem falar eu preciso de você, que não amam incondicionalmente, que se acovardam e perdem a hora, o tempo, o momento, perdem a vida sem de fato tê-la vivido.

Ela apenas não entende essa ideia louca de querer sempre ter razão, de desejar o equilíbrio onde a vida pede a instabilidade da aventura, de querer enxergar onde a fé pede o salto no escuro, no desconhecido. Molhar somente os pés não é com ela, não comunga da sua natureza viver com pessoas rasas ao seu lado. Ela apenas não entende o coração pesado, cansado de arrastar para todos os cantos as correntes de um passado que sequer teve a chance de existir, ela não entende as dores de um coração que constantemente vive aflito das projeções do que deveria estar sendo vivido, agora, no presente. Ela apenas não compreende um coração calejado de doer sempre pelos mesmos motivos, sem razão que o cure da dor e da saudade.

E da saudade ela não entende como os outros podem não entender a nostalgia de um futuro projetado e ainda não realizado, é da projeção e não do que não foi vivido que se sente falta, é certo que um futuro idealizado não será como imaginamos. Ela sabia, ela sabe. E de repente esse vazio que vez em quando parece querer nos devorar, ela não entende como os outros podem não compreender esse aperto no peito despertando uma vontade desesperada de ressuscitar antigas cartas de amor, de falar com quem se foi, com um amigo que saiu sem se despedir, sem dar ao adeus uma única chance. E então a vontade de cair novamente nos braços do primeiro, do segundo, do terceiro amor. E ela sabe que essa ânsia que consome tem outro nome, outro cheiro, outra aparência, é a carência em seu disfarce de saudade. E que assim como a saudade, a carência faz o peito se encolher de dor, e assim como a saudade a carência modifica o amor.

Mas ela ainda não entende como os outros podem não perceber que ela prefere as rudes expressões de um carinho sincero de quem não está acostumado a ele, a gentileza que se desfaz na primeira contrariedade de quem não o é naturalmente, mas porque precisa impressionar. Ela quer se proteger das lutas diárias dos diálogos que exaurem, nos sugam e nos desfazem em pedaços, sem nem porque, sem de fato ser. Ela não é fria, longe disso, a firmeza aparente que transpassa a sensibilidade de um coração que amou e sofreu demais, apenas a protege de amores fracos e de almas austeras. Ela só quer ser livre.

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

0 Comentários:

Postar um comentário