#REALIZAÇÃO

Quando essa história de escrever começou a dar seus primeiros passos, estes assemelhavam-se aos passos de uma criança que acabara de aprender a andar. Era um caminhar inseguro, cambaleante, mas não há dúvida de que eram passos ousados, embora ainda que inconsciente precisassem de apoios. A mesinha de centro, os braços daquela velha poltrona eram apenas substitutos, era preciso mais. Com os mesmos olhos atentos de uma criança desacostumados aos riscos, eu buscava pela segurança que só os dedos das mãos de um adulto poderiam proporcionar. Chegar ao outro lado da sala era uma tarefa completamente possível, mas as quedas que me esperavam pelo caminho eram inevitáveis, e que bom que elas estavam lá. As quedas nos forçam a prestar atenção ao caminho e aprender dele as lições necessárias para nossa sobrevivência.

Meu objetivo era a passagem que com dificuldade eu avistava do outro lado, parecia distante, inalcançável. Fixei nela o olhar, e ainda com um andar desajeitado enchi o peito de ar e continuei, finquei pé, como diriam os meus avós. Ficava extasiada apenas pensando nas muitas possibilidades que aquela passagem escondia. Eu imaginava um mundo cheio de novidades. Não sei, parecia loucura ou devaneio de quem guardava bem no fundo da gaveta, como uma espécie de apólice de seguro que eu esperava nunca mais ter que usar, mas ao alcance das mãos e bem longe das vistas – o diploma da faculdade. No papel estava escrito - Engenheira da Computação, no coração - Inventora de Histórias, Construtora de Sonhos.  

Graduei-me com honras. E aquele certificado que guardava promessas de um futuro promissor, foi por motivos justificáveis o orgulho de minha mãe e era a satisfação de meu pai. Para mim representava apenas o contentamento de um dever cumprindo. Mas embora livre, não poderia seguir viagem ainda, a tripulação não estava completa. E nessa de aguardar quem estava para chegar, as asas do meu instante mágico aos poucos foram se formando. E de repente, o ensejo de uma vida simples se evidenciou em mim – eu só queria escrever. Imersa em meus contrários resisti as complexidades do senso comum. Era hora de assumir quem eu nascera para ser. Decidi que era hora de existir - calcei meus sapatos, vesti o velho agasalho e fui encontrar aquela que já me aguardava desde o meu primeiro instante neste mundo. Fui ser eu.

Ocorre que nessa busca pelo reconhecimento profissional do que intimamente eu já era, contava com amigos cuidadosos - os tripulantes retardatários, acautelados pelo medo de mais uma queda. É que não estava sendo fácil reerguer-me. Cada tombo custava-me um tempo maior para levantar-me. Com frequência encontravam-me enamorada pelas minhas frustrações, frutos de mais uma batalha perdida. Recorria a desculpas para estender o tempo da compaixão, o medo tinha lá o seu conforto. “Estou doendo”, eu dizia, “agradeça por sentir e levante-se”, eles replicavam. Estes, protegiam-me e ainda protegem, de mim mesma.

Ainda avisto aquela passagem, mas o caminho não se assemelha aquele de quando eu era menina de pé descalço, andando em meio ao barro, as provações cresceram comigo. E ainda hoje quando penso em desistir, encontro aqueles que enxergam no meu amor pelas palavras a manifestação de um dom. Demonstram entusiasmo a cada sílaba lançada, a cada combinação estrategicamente pensada para parecer desleixada. São anjos protetores do dom. Não importa por onde eu tenha que passar, desta estrada eles só querem ter a certeza de que nela cabem também minhas palavras, aquelas que me forjam a ser quem sou.

Houve um tempo, quando o sonho começava a se distanciar, os guardiões se apresentaram e não permitiram que ele corresse para longe. E mesmo que o tempo não estivesse convidativo para correr atrás de sonhos, eles me incentivaram a continuar. Eles cuidaram para que eu me mantivesse firme no compromisso que assumira comigo mesma. E essa disposição para margear meu caminho com as certezas e encorajamentos que eles trazem no coração, me fazem sorrir e querer continuar.

Mas aqui entre nós, no silêncio do meu quarto, quando minha alma se aquieta e entrego-me as minhas orações, peço a Deus que os proteja a todos, mas principalmente que Ele não permita que os Guardiões fraquejem em sua nobre tarefa, porque sem que eles saibam, às vezes, me alimento também de suas certezas.











Shirley Basílio | 2 commentários

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