CRISE, O EUFEMISMO DA VEZ

Ser honesto até o fim é uma virtude, sem honestidade ato algum será virtuoso. _ Mestre Gigante (Capoeira Gerais)
Vivemos mais um momento difícil na história do Brasil, e há meses estamos travando esse embate contra a corrupção e/ou a favor da democracia. No entanto, este mesmo povo que hoje assiste a TV Senado, que aprendeu a se comunicar de forma rápida, instantânea, que acompanha dentro e fora do plenário o comportamento dos seus elegidos, não entendeu ainda que ... não era só pelo pão, era também por ele. Não era só pelos programas sociais, era também. Não era só pelas oportunidades duramente construídas através dos programas de educação, PROUNI, PRONATEC, CIÊNCIAS SEM FRONTEIRA, é também por elas. Mas é também pela dignidade devolvida a um povo que até bem pouco tempo apenas sobrevivia. É também pela ação transformadora que não vai muito longe alcançou a educação superior, colocando as universidades públicas em posição de destaque, tornando-as protagonistas no âmbito de um processo que não teve tempo de amadurecer.

As mutilações estão acontecendo em tantas direções diferentes e tão rapidamente que mal tem dado tempo para piscar os olhos. Os sinais são desalentadores: extinção da CGU, fim dos programas sociais, fechamento do Ministério da Cultura. Lembra dos filmes nacionais, onde aparecia a logo do MinC? Então, daqui para frente apenas o espaço em branco.

Estamos retrocedendo, e isso preocupa-me tanto quanto o encontro que teremos com o nosso futuro, pois não nos atenta considerar que o problema somos nós, como povo.  Se o Brasil não é o país que queremos para nossos filhos, nossos netos, para nós mesmos, seríamos nós o povo que o Brasil escolheria para habitá-lo, caso tivesse essa opção?

Ainda não compreendemos que o próximo presidente eleito do Brasil, assim como FHC, Lula, Dilma, será tão brasileiro quanto nós somos, tupiniquim, aqui criado,  assim como nós e exposto as mesmas mazelas sociais, corrupção, fraude, desigualdade social, entre outras. O próximo presidente do Brasil daqui a 10, 15 ou 20 anos sairá do seio de um povo que não consegue conviver com os erros, os seus e os dos outros, que preocupa-se mais em ter razão e apontar culpados, do que dar de frente com a verdade ou assumir a responsabilidade pelos seus atos. Que lucra com as pequenas corrupções do dia a dia.

O próximo presidente do Brasil será filho de um país onde ser desonesto, mal pagador, são características que não nos rouba a elegibilidade, ao contrário, parece reafirmá-la. Ser honesto constitui-se hoje uma qualidade digna de apreciação, não deveria ser esta uma virtude intrínseca a nós enquanto povo, enquanto humanos?

O próximo presidente do Brasil será filho de um país onde puxar a TV a cabo, a internet do vizinho ou fazer os famosos "gatos” nos fazem espertos, e não nos “toma” o direito de nos queixarmos pelo auto preço desses serviços. Onde os veículos têm prioridade sobre os pedestres. Onde idosos e crianças são entregues ao abandono, e ainda assim, sentimo-nos no direito de clamar por respeito. Não incentivamos a leitura, mas queremos ser reconhecidamente um povo culto.

É legítimo o desejo por mudanças reais, é urgente a necessidade de mudarmos, de sermos aquilo que cobramos dos nossos governantes. Para vermos transformados em realidade os sonhos que aspiramos para nosso país, é preciso que antes façamos a nossa parte. Crise, é o eufemismo da vez para o tempo de crueldade e engodo que estamos vivendo agora. Os gritos de “não vai ter golpe”, a luta pela salvaguarda do nosso processo democrático, os achincalhamentos atirados por ambos os lados, nada disso terá efeito, se não formos capazes de encarar a pessoa que nos olha de volta, do outro lado, no espelho. 

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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