MORRE O DIÁLOGO

É o fim do mundo, neste momento em que vivenciamos o caos político onde nos atolamos até o pescoço, no momento em que nossa capacidade de comunicação está em permanente xeque, no momento em que o diálogo, que na opinião da escritora, repórter e documentarista Eliane Brum é o nosso instrumento mais transgressor, deparamo-nos com atitudes estarrecedores que configuram ausência de afeto, da capacidade de dialogar, de compreensão. E o diálogo ao qual se referiu a escritora é, por uma professora universitária, sepultado.

Li apreensiva o desabafo de uma mãe, que não tendo com quem deixar a filha levou-a consigo ao curso do Instituto de Letras da UFRGS, onde, nas palavras da mãe – ela e a pequena Anya de 5 anos foram “covardemente expostas, constrangidas e humilhadas ... pela professora do departamento“. Quando clamamos pelo resgate do humano que existe em nós, para que sejamos capazes de lidar com a podridão que nos cerca, nos vemos frente a frente com o retrocesso da liberdade que duramente conquistamos – a resolução dos conflitos pelo diálogo. Vemos reproduzidos em microrganismos o ódio que se espalha pelo país em larga escala.

Assistimos paralisados as barbaridades cometidas em nome da moralidade e da ordem, o que podemos constatar através do relato dessa mãe, é, parafraseando o ator Wagner Moura, teatro do absurdo. Leia o desabafo:

FONTE DA IMAGEM: Colégio E. Bernardo Sayão

"O que eu fiz pra deixar minha mãe triste assim? Por que minha mãe foi expulsa da aula por minha culpa?"
Essas duas perguntas encheram a cabeça da Anya, minha filha de 5 anos, durante a tarde de hoje, em que passou na sala da Orientadora Pedagógica da escola dela tentando entender como uma professora pode fazer algo tão agressivo.
Sou aluna do Instituto de Letras da UFRGS e hoje fui covardemente exposta, constrangida e humilhada por uma professora do departamento quando entrei com a minha filha pela mão na sala e durante a aula.
Entrei na sala, dei oi e fui seguindo pra me sentar. A professora me olhou com um ar de incredulidade e, sem sequer me responder o cumprimento, iniciou um sistemático questionário sobre a minha filha: " ELA VAI ENTRAR NA AULA?"; "ELA PODE ASSISTIR AULA?"; "ELA NÃO VAI SE CHATEAR E INCOMODAR A AULA?"; "TU NÃO TEM CRECHE PRA DEIXAR ELA?"; "NENHUM PARENTE PODE FICAR COM ELA PRA TI?"; "TEM CERTEZA". Respondi pacientemente às perguntas e expliquei que ela estar ali comigo era o modo de garantir minha permanência na universidade. 
A aula se seguiu com a Anya sentadinha no chão ao meu lado brincando de bonecas e SUSSURRANDO e comigo tentando ignorar os respirares fundos da professora, olhares raivosos pra minha filha e prestar a atenção na explicação dela. Até que, num certo momento, após uns 15 minutos de aula e sem nada ter sido feito da parte da minha filha pra provocar tal reação, a professora explode repetindo a pergunta: "MAS TU NÃO TEM MESMO COM QUEM DEIXAR ELA?".
Nessa hora comecei a arrumar minhas coisas pra sair da aula, ao que uma colega começa a reclamar muito da atitude da professora, seguida por outras colegas me apoiando e dizendo que era um absurdo o que a professora estava fazendo, Eu saí da sala, não podia mais continuar sendo humilhada e continuar deixando minha filha ser exposta daquela maneira. Fui até à Comissão de Graduação e, enquanto eu era orientada quanto às medidas cabíveis, a professora apareceu e continuou falando, justificando, se exaltando e repetindo NA FRENTE DA MINHA FILHA o quanto ela estava atrapalhando porque estava BRINCANDO. 
Não respondi, me dirigi à funcionária da Comissão agradecendo e dizendo que ia abrir o processo por assédio moral e que não tinha mais nada pra falar com a professora. 
Não consegui abrir o processo na hora, pois tinha que conversar com a Anya, explicar que não foi culpa dela, que nós estávamos certas e, juntas, faríamos algo pra que aquilo nunca mais acontecesse com nenhuma mãe e nenhuma filha.
É isso. A maternidade e o quanto ela causa a exclusão da mulher no mercado de trabalho, na escola e na universidade é uma pauta que grita por visibilidade dentro dos movimentos sociais. Eu vou perder a cadeira, não tem condições de seguir assistindo aula com uma pessoa dessas. O que alguém assim pode me ensinar? Entrei grávida na universidade e estou 4 semestres atrasada do meu tempo de ter me formado, porque sou mãe e preciso trabalhar nos horários que a UFRGS disponibiliza as aulas. O questionamento que quero deixar com esse breve relato é: Quantas mães não assistiram aula por causa dos seus filhos hoje? Quantas mães não conseguiram emprego por causa dos seus filhos hoje? E quantas mais serão excluídas por serem mães amanhã?
Se concordam em dar visibilidade à pauta materna, por favor, compartilhem pra a gente ser vista! VAI TER MÃE NA UNIVERSIDADE, SIM!

Nina Biten Court

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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