MEUS PROFESSORES, MEUS HERÓIS

Muitos anos poderão se passar, não importa, eu ainda me lembrarei do gostinho de ver meu trabalho como destaque na parede da sala. Éramos um pequeno bando, em tamanho e quantidade, talvez não mais que vinte pares de olhos ansiosos, sedentos de brincar, os veteranos da nossa turma não tinham mais que cinco anos. O jardim de infância era o meu jardim encantado.

E nas paredes da memória poucas brilham mais do que a lembrança da primeira vez em que consegui ainda aos tropeços ler sozinha. Meu pai em pé ao meu lado, saboreava o momento, enquanto que eu, parada em frente a um grande e cinzento portão de ferro lutava para juntar as sílabas grafadas em um divertido tom de amarelo sol, GA RA GEM. Palavra bonita, nela estavam estacionados um mundo de possibilidades e aventuras, aguardando serelepes para serem vividas. E quando aprendi o segredo das letras, descobri que assim como os personagens dos livros, professores também são seres mágicos, só eles podem nos conduzir a um novo mundo.

Eu estava liberta, tinha agora permissão para viajar por vastos e variados universos, cruzar fronteiras, romper limites, acordar guerreira de uma terra distante e a noite voar como a Wendy, e entre o nascer e pôr do sol eu poderia ser o que quisesse, caçadora de tesouros, bailarina, eu poderia até ser gente grande, o que na Terra do Nunca era proibido querer.

Mas quando já na adolescência eu caminhava sem muita certeza dos passos que dava em direção ao mundo dos adultos, eu me sentia como os Garotos Perdidos, e sempre me lembrava do portão cinzento, não sei porque, mas aqui na vida adulta parece não haver muitos lápis de cor. E agora, GARAGEM se escreve com letras sérias e brancas, e é só garagem mesmo, não guarda mais nenhum mistério.

Finalmente a faculdade, eu, de humanas, escolhi exatas, o encanto sumiu, quem agora contava as histórias eram os números, as letras faziam contas, somavam o nosso desespero, (x + y) = 0. A função integral do cotidiano acadêmico obrigava-nos ao escalonamento de nossas dificuldades, e juntos formavam uma equação tão real quanto limítrofe. O estímulo a nossa criatividade agora tendia a zero, nossas esperanças de uma cultura lúdica foram derivadas.

CENA DO FILME 'O GRANDE DESAFIO' [2007]
E para minha surpresa os professores continuavam repetindo as histórias dos meus livros infantis, embora a missão dada a eles fosse laboriosa, com poucos recursos eles eram capazes de obras extraordinárias, não sei exatamente como, a gente nunca sabe. Mas eu os vi pegarem nossas expectativas, nossos medos e complexidades e misturarem tudo em um caldeirão de compostos teoréticos e de lá retirarem a essência de cada um de nós, seus padawans. E entre nós eles produziram engenheiros, analistas, programadores, e aqueles que demostraram ter o dom, foram feitos também PROFESSORES, a mim, eles fizeram escritora, ora, vejam só, mesmo que meu diploma insista em expressar vontade contrária. Estes seres dotados de saber erudito me descobriram construtora de histórias, os mestres sabem tudo.

Ainda hoje quando nos encontramos, eles sempre me perguntam, “ei Shirley, continua escrevendo?”, nunca me perguntaram se continuo engenhando. E por isso também, que daqui a cinquenta anos eu ainda saberei o nome deles, Tia Fátima, Regina, Helvécio, José Antônio, Saul, Wesley, Daniella ... e vou me lembrar de todas as vezes que vocês me conduziram em meio aos números ao reencontro com as palavras que contam histórias. E quando me lembrar de vocês, com um largo sorriso vou recordar com saudade do tempo em que meus heróis saltaram das páginas dos livros para a sala de aula, local onde nos foi permitido o encontro e a convivência. Quando crescer, quero ser igual a vocês.   

Shirley Basílio | 2 commentários

2 Comentários:

Hoje eu li... Me desculpe pela demora em ler e muito obrigada por sua gratidão. Alunos iguais a você são raros e nos fazem desistir de desistir... :)

Que nada, nem passou um ano ainda 😂😂😂 ... pode desistir não, são tão poucos 🖖

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