EM ALGUM LUGAR DE MIM [...]


"Quando me pergunto quem sou eu, sou o que pergunta ou o que não sabe a resposta?"     
Geraldo Eustáquio

Estamos pra lá de acostumados a buscar por respostas em um contexto externo, além de nós, e, portanto esquecemos de procurá-las onde realmente estão, em algum lugar oculto em nós mesmos. Estamos arraigados a premissa de que meu erro, só o é por causa do outro, a convivência estranhamente harmônica das tristezas e frustrações que habitam em mim, só coexistem por causa do outro, não minha culpa, mas do outro.  A verdade é que muito mais por instinto do que por ciência, sabemos que este olhar que volta e escrutina tudo o que há escondido em nós, e que nos revela frágeis e miseráveis não é mesmo fácil de encarar. Mais fácil é culpar o outro pelo traste que sou.

Somos continuamente engolidos não por nossas urgentes necessidades cotidianas ou pelas circunstâncias rotineiras que nos enlaça, mas por uma dependência em ter respostas para tudo que nos deixa desconfortáveis.  E em nossa busca desenfreada por palavras que nos solucionam, um curioso paradoxo se apresenta, nosso desespero por respostas é inversamente proporcional ao desejo de aceitá-las em sua completude, sem inflexões que nos favoreçam. Uma nova busca tem início, um loop se instaura, rendo-me a armadilha. Nem mesmo sequer desconfiamos que descobrir-se no erro, nos faz querer a redenção, nos faz querer sermos melhores, nascer de novo, viver em um estado absoluto de solitude – reencontrar-se.

Vivemos submersos em um mar de culpa e arrependimentos, e por isso temos medo de saber quem somos, contentamos apenas em acreditar que sabemos. E porque nos falam de nossos erros, de nossos pecados e de nossas imperfeições, adiamos nosso encontro com a verdade e nos deixamos dominar. Somos submergidos pela consciência moral em detrimento de nossa própria consciência, e abdicamos de toda a nossa extensão, do que de bom poderíamos encontrar se não fosse o nosso medo de tentar ser o que nascemos para ser – nosso próprio horizonte.

E por que não queremos assumir a responsabilidade pelo que somos, seja isso bom ou ruim, permitimos que em um movimento contínuo o ciclo de estabelecer um culpado por nossas mazelas e   falências emocionais se consolide. Culpamos aquele que está mais próximo, sejam os nossos pais, a sociedade, um ideal, um alguém, nunca somos nós os culpados. É mais cômodo ser guiado do que assumir-se o guia, e na mesma proporção é mais fácil ir parar em qualquer lugar, goste ou não, você está exatamente onde se permitiu estar. E se você não gosta de onde está, o que pretende fazer?  É o que acontece quando cedemos as rédeas do que somos a outrem - quando permitimos que sejam por nós, deixamos de existir.

No entanto, é preciso mais que coragem para encontrar-se com quem você é de verdade, com o seu eu pleno e completo. Será preciso também humildade, você terá que lidar com suas imperfeições, reconhecerá-se incompleto e um ser carregado de contradições. Mas será imensamente recompensador caminhar sabendo que os rastros atrás de você representam as suas próprias pegadas e de ninguém mais.  Será imensamente recompensador ser capaz de ir de um extremo a outro sem se perder de você mesmo. Será imensamente recompensador quando olhar-se no espelho, e satisfeito saber-se pronto para mais um dia de dor e alegria de ser você.

FONTE: olheosmuros

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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