E QUE TAL SE [...]


E que tal se caminhássemos sem nossas armaduras conceituais, amarradas as nossas verdades tão cheias de empáfia, que chegam a nos privar da naturalidade proveniente de um movimento espontâneo, inato. E que tal se nos permitíssemos um pouco de leveza, deixássemos para trás a opacidade que nos impede de enxergar as cores que implodem dos ritmos de cada manhã.

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Se renunciássemos ao preconceito nosso de cada dia, a intolerância brutal, que nos remete a um tempo de intransigência e medo. Que fere e dilacera em cada coração a esperança de um amanhã melhor que o hoje.  Que mata em nós o ensejo de lutar por uma sociedade de fato livre e igualitária.

Livre dos retrocessos que nos mantém atados aos laços da irracionalidade. Escravos de nós mesmos, de nossa mente apequenada pelo pragmatismo imposto por uma sociedade acorrentada a velhas convenções, e que sempre encontra um jeito de justificar sua falta de jeito com os marginalizados.  

Que tal se abandonássemos o nosso conforto, e abrindo mão da preguiça existencial que nos assola, desenterrássemos a gentileza gratuita, buscássemos pelo consenso e pelo diálogo a muito sepultados.

Mas principalmente, que tal se por ação do resgate da moral em outros tempos corrompida, e que nos afastou da dignidade sob a qual a conduta de cada cidadão deveria ser pautada, atássemos os nós que nos separam.  Assim resgatando o humano que existe em cada um de nós, mas que insistimos em manter soterrados sob a farda de nossa obsessão pelo conflito e avidez de uma visibilidade a qualquer custo.

E quando nada tivermos para dizer, que tal se no lugar de atirarmos pérolas aos porcos, defendêssemos com igual vigor o direito do outro de não ser igual a mim, ou ainda, em um gesto transgressor para os tempos que estamos vivendo agora, reconhecêssemos a força oculta no repouso da palavra. 

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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