CARTA AOS AMIGOS MEUS


Quando escrevo tenho uma evidente tendência a uma narrativa na primeira pessoa do plural, não deixando claro se falo a partir de uma observação generalizada ou se a janela na qual me encontro é a de uma experiência pessoal. O segredo é que misturo um pouco dos dois, ora sou a observadora, ora a observada.

Mas não hoje. Recolhida em meu próprio silêncio, reflito, leio, escrevo e medito, até porque, não há muito mais o que fazer por aqui, o objetivo deste “exílio” voluntário é o reencontro comigo mesma. Baixar a guarda, recolher as armas, e por um tempo apenas observar a arena - campo onde inúmeras vezes travei minhas maiores batalhas. 

E volto hoje a este campo porque foi aqui que conheci aqueles que correram e lutaram comigo. Rendo graças aos combates que por aqui travei, porque foi neste campo que conheci soldados cuja integridade brilha mais que um diamante na poeira do deserto. Volto a este campo porque foi aqui que já cansada da luta e sem forças para continuar, olhei para o lado e reconheci a face dos meus verdadeiros amigos – Correndo e lutando comigo combates que não eram os deles.

O tempo todo lido com minhas misérias, o humano que sou encontra-se em constante construção. Aceitar meus limites e imperfeições também fazem parte da minha luta. Erro desejando acertar. Tentando a perfeição, incessantemente me desapontei. E por isso, tenho certeza que os desapontei também. Mas eles continuam comigo, porque a amizade não é sobre perfeição. É sobre aceitar o outro e suas falhas, saber que nossas lacunas é a parte “torta” que guia cada um de nós.

Sou grata a todos os meus amigos, mas sou especialmente grata a vocês que estiveram comigo quando nem mesmo era possível saber se havia um caminho a seguir. E agora que parte dele já é visível, sou grata a vocês por não terem desistido de procurá-lo ao meu lado e muitas vezes, por mim. Em breve estarei de volta a arena, é preciso seguir lutando, calando as muitas vozes que existem em mim, até que reste apenas minha própria voz. Mas até que este objetivo se cumpra, a vocês ergo meu copo em um brinde entusiasmado e os agradeço por encherem a minha vida de esperança e alegria.  

É para vocês que dedico o essencial da minha vida, a vocês amigos meus, a meu pai e minha mãe, que cedo demais foi obrigada a recuar e deixar o campo de batalha. Mas se é verdade que pessoas podem atravessar mundos, sei que as mãos dela estarão sempre segurando as minhas. 



Shirley Basílio | Nenhum Comentário

0 Comentários:

Postar um comentário