[EU, VERÃO]

E é assim que nos esbarramos pelo caminho, cabeças e horizontes completamente distintos, e mesmo com todas as diferenças seguimos pela vida acrescentando dias aos nossos anos, vivendo histórias para contar depois. Nossas cores colorem nossos motivos e nossos sorrisos, ente querido – nosso fiador, âncora de nosso afeto.

Mas os dias cinzas assim como as noites escuras parecem uma estação que insiste em permanecer além do tempo necessário, uma espécie de outono que partilha inverno e verão – um inverno às avessas, um verão ao contrário, e que não quer passar. Os dias são longos e ainda não é tempo de colher, um processo de melancólica introspecção se instaura, e nos consome, e nos some.

Somos muito críticas acerca de nossas próprias cicatrizes, empenhamos energia, tempo, saúde consertando aquilo que julgamos inadequado em nós, somos duras com nossas imperfeições. E a forma como nos percebemos, mãe, esposa, profissional, afeta o modo como nos relacionamos com o mundo, afeta o modo como nos relacionamos intimamente com o que é real em nós. Acreditamos que somos do tipo invencível, quando então assistimos estarrecidas nossa impermeabilidade a certas emoções se romper, e percebemos que não somos só o árido do deserto, somos também ele, que não somos as situações que nos afligem, somos também elas, que não somos só metade huma[nas], somos totalmente. 

Reconhecemos nos olhares com os quais cruzamos pelas ruas os nossos próprios medos, entre eles, o pânico de não sermos capazes de enfrentar os desafios da vida. E quando as lágrimas, filhas do cansaço dos longos dias de espera se misturam ao torpor das noites enevoadas e frias das estações que se fundem em uma única estação, nos recolhemos, somos inverno quando deveríamos ser verão.

O que da vida cabe a nós é aproveitarmos o que cada estação traz de belo, as alegrias de um tempo instável, não percebidas, mas sentidas. E se inverno e verão comungam do mesmo outono, tornando-o uma única e duradoura estação, que sejamos então capazes de transbordar o caos que existe dentro de nós, que sejamos primavera a perfumar os dias frios e as abafadas noites. Que não renunciemos ao direito de escolhermos nossa própria estação. Não importa o tempo lá fora, eu escolho o verão dentro de mim. 


Shirley Basílio | 2 commentários

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