[R]UMOR E SUAS [R]EVOLUÇÕES

Parece não ser suficiente que a gente viva em um país assolado pela miséria, cujas soluções encontradas pelo governo parecem não serem capazes de produzirem o impacto desejado, milhões continuam dependentes do poder público para sobreviver. Um país caricaturado pelo assistencialismo que deixou de ser ajuda provisória e passou a ser compreendido como um gerador de parasitismo. Não parece ser suficiente que as esquinas vivam repletas de maltrapilhos, esmoleres, entre os quais, velhos, mulheres com bebês no colo e sobretudo crianças, em comum a pobreza extrema, um reflexo do desvio social em que estão inseridos.

Não parece ser suficiente que a gente viva em um mundo impregnado pela intolerância, que enxerga na violência física ou verbal a única maneira de resolver seus conflitos. O diálogo não é considerado nem mesmo obsoleto, se assim fosse, em algum tempo ele poderia ser resgatado como uma espécie de moda vintage, não, para que não corramos tal risco o diálogo foi sepultado. Mas nada disso parece ser suficiente, é preciso reforçar a mensagem com um conteúdo que ridiculariza o que é diferente de mim. Em um texto intitulado “o plano cobre”, a jornalista e cronista Silvia Pilz, escracha com o que ela chama de humor cáustico a relação entre pobres e a saúde.

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Toda sociedade se organiza em torno de leis e limites que determinam o que se pode ou não fazer, o que é correto e o que extrapola os preceitos de uma conduta de respeito com o meu semelhante, e se desorganiza na ausência destas mesmas normas e barreiras. Mas parece não haver limites na esculhambação do outro, “mas é humor”, dirão alguns, “humor cáustico”, outros tentarão justificar. “Com uma caneta eu não degolo ninguém”1, disse Stéphane Charbonnier - conhecido como Charb, editor da revista Charlie Hebdo, mas se com essa mesma caneta eu prego a intolerância e a discriminação, não posso negar minha contribuição na disseminação do ódio que marginaliza, ridiculariza e constrange o humano, seja ele diferente ou “igual a mim”. Todos aqueles que de alguma forma detém o poder da comunicação deveriam conduzir o homem ao bom uso da razão e não o contrário.  

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A verdade é que o humor as custas do desprezo, da indiferença e do sofrimento do outro, não é humor. Até porque, para que seja considerado cômico ou trágico, depende do talento de quem o produz e da agudeza de quem observa, ou o resultado poderá ser um humor negro, e com um inevitável pedido de desculpas, se para isso houver tempo. Sabe-se que o curso de um conflito não é determinado por quem o inicia, mas por quem cabe a reação, mas convenhamos, em tempos obscuros como o que estamos vivenciando agora, não sejamos tolos, uma caneta e um papel são tão letais como uma espada e um revolver podem ser.

Li que o diferente cumpre o papel de nos atrair para ser conhecido, concordo e digo mais, deixar a margem, isolar e achincalhar aquilo que não agrada os nossos olhos, produz um efeito oposto, não é segredo, mas parece que poucos sabem que a parte excluída não é automaticamente eliminada e como um núcleo independente esta parte tende a se organizar e se reproduzir.

[1] Fonte de Referência - Blog: em tom de mimimi, acesso 14/01/2015 

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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