AMIGO FELPUDO


Quando ele chegou atendia pelo nome de Lancelot, nome comprido, ele não dava conta de carregá-lo e andava envergado sob o peso da reputação que encerrava em si o nome do primeiro cavaleiro. Então, aqui em casa ele virou Argos – um levado, inquieto, mas também fiel e amoroso cão. Veio dentro de uma mochila e ainda com um laço em volta do pescoço, foi o seu recorde, depois daquele dia nem laços ou gravatinhas permaneceram por tanto tempo. Ele veio para me fazer companhia, o melhor companheiro do mundo inteiro, não posso deixar de dizer, imediatamente nos reconhecemos amigos, meu parceiro de quatro patas, meu amigo felpudo. O que mais chamou-nos a atenção é que ele nunca pareceu estranhar a nova casa, parecia saber que estava em um lar onde jamais economizaríamos no amor a ele dedicado.

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ARGOS - COM 11 ANOS

E se é importante para alguém, Argos descendia dos nobres cães ingleses, e trazia impresso em seu DNA canino o instinto nato de um caçador. Ah, seus ancestrais ficariam orgulhosos se o vissem em seus momentos de glória, quando alheio aos perigos que o cercava empreendia terríveis buscas que lhe exigiam o emprego de todas as suas habilidades, mas não tardava a surgir elegante e vitorioso, na boca entre os dentes o troféu, um vencido e inerte par de meias ou as vezes um intrincado novelo de lã.    

Argos parecia estar sempre ligado em uma tomada invisível, sua energia era infinita, elétrico e apressado, vivia para nos mostrar que não havia tempo a perder, ele compreendia que o tempo não comunga de nossa presunçosa ideia de eternidade. Conhecedor do curto período que dispunha, ele vivia para nos ensinar a essência do amor gratuito, puro, verdadeiro. Mas contrariando a própria lição, o seu amor era egoísta, ele não era dado a compartilhar com os outros um pouquinho que fosse de nossa atenção.  

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ARGOS - COM 13 ANOS
Mas em seus últimos dias Argos estava apagado, andava cabisbaixo, muito triste mesmo, o seu caminhar já não exibia mais a mesma elegância dos tempos da vívida e tenra idade. Quem antes corria pela casa explodindo alegria, agora exibia uma quietude de cortar a alma. Dado o tamanho monstruoso do seu apetite dizíamos que só um terrível engano não o fez um São Bernardo, é que suas orelhas grandes e caídas e a cabeça de coquinho não deixavam dúvidas, Argos era uma legítima personificação do companheirismo típico do Cocker Spaniel, um legítimo representante do amor que nada pede em troca, nem mesmo um afago. Mas o seu apetite já não era o mesmo.

Argos sempre corria para a porta quando farejava minha aproximação, mas em seus últimos dias, não... em seus últimos dias ele só conseguia reunir forças para ficar de pé e balançar levemente o corpo em sinal de contentamento por que eu simplesmente estava ali, eu havia chegado, para nós bastava apenas que estivéssemos na mesma sala.

Lembro da última vez em que nos olhamos, você, meu amigo, parecia pedir desculpas por não ter ânimo para brincar, e quando de fato nossos olhos se cruzaram por um último momento, naquele último segundo de mútua contemplação, seu olhar não exibia nada além de amor e saudade.”

Shirley Basílio | 2 commentários

2 Comentários:

Isso!!!! Eu o escondi na mochila.. só assim poderia levar seu "presente felpudo". Foi com muito carinho que entreguei ele a você, com a certeza de que cuidaria de um filhinho do Zulego. Sei que ele teve a melhor companheira.

😂😂😂 Lembro de cada detalhe, desde o momento em que você chegou com ele aqui em casa ... saudade boa, de ambos. ❤

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