DOIS MIL e CATARSE

Muitos comungam a sensação de que 2014 foi um ano de merda, como foram tantos outros... mas ele – 2014, não findou sem pregar-nos uma peça, um último grande ato, de impacto catastrófico para corações desacostumados com o infausto destino do herói. Conhecemos o herói como uma figura vencedora, magnífico em sua glória, exalando amor pela vida. Quando este valente é repentinamente impedido de vestir sua armadura e empunhar sua espada, quando a ele é negado o direito de lutar, ele não tomba sozinho. Tombamos com ele. Tombamos porque ainda não estamos acostumados a enxergar no fim uma oportunidade de recomeço. Essa ideia de uma nova estrada, de um novo começo, não cabe dentro do fim, é inversão da lógica. Tombamos porque enfim entendemos a finitude que cerca nossa bucólica existência.

Quando um protagonista da vida é brutalmente retirado do campo de batalha, em um instante tudo muda, e tudo permanece exatamente como é, imóvel, suspenso. As folhas não desprendem mais de seus galhos permitindo as árvores uma última homenagem ao herói decaído. No céu, as estrelas como que encantadas precisam se apagar, porque o brilho de um guerreiro valente é intensamente mais forte. E do lado de dentro do infinito e inalcançável céu, ele prostra-se a observar a beleza da vida, da morte, as dores sentidas, e as que nunca terá oportunidade de sentir. Os amores vividos, os tempos idos e o que virá. Sentimentos de amor, de dor, desconhecidos, desconhecidas dores de amor.  

Antes que você fechasse os olhos pela última vez, cada pedra, cada curva, cada verdade do caminho que hoje você reconhece lhe eram também desconhecidas. Mas agora que você as conhece, seu repentino silêncio nos conduz, nos ensina que a única maneira de continuarmos vivos é nos eternizando no coração de alguém. Seu doce e oblíquo olhar, dizem por aí, refletia a urgência de ser e fazer alguém feliz. A notícia é que em sua vida não lhe faltavam os sorrisos, talvez seja por isso que de sua ausência a lacuna é o que fica. É o que marca.

E agora quando tudo é recordação, que você é saudade, penso se poderia refazer aquele pedido de Natal, não quero mais o relógio, inexplicavelmente ele só conta os minutos e as horas sem você. Quero um aplicativo que lhe encha novamente os pulmões, quero também um coração vitalício, mais de um - são muitos os meus heróis, então troque todas aquelas roupas pelos corações. E rins blindados. E se tudo isso for pedir muito, quero só o dom de tornar eterno aqueles que amo. Quanto a mim, não preciso da eternidade, sei fazer-me eterno, aprendi tudo sobre essa arte, o herói ensinou-me. Ele só não me ensinou o que fazer com a saudade, é que não deu tempo.

E se permitem-me o adendo, sobre o tempo ensina-nos a vida, abrace, beije e ame com o encantamento da descoberta e urgência da primeira vez, mas com a mesma intensidade e paixão... como se fosse a última vez.

Manual do Guerreiro da Luz


2015 ainda não chegou e já herda deste ano que termina uma malfadada dívida. Impossível extingui-la. Então, a todos meus amigos, mas principalmente para aqueles que começam o Novo Ano com o olho no retrovisor, ainda incrédulos com a irreparável perda que sofremos - sim, porque quando cai um dos nossos, caímos todos - a vocês eu desejo um DOIS MIL e CATARSE, que seja um ano de purificação. 

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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