O TEMPO, O AMOR


Assim é, passamos por este mundo com a equivocada sensação de que nosso tempo na terra é infindável. Reconhecemo-nos como senhores da ordem que invoca passado e futuro à revelia do que reserva-nos o destino se ousássemos viver o presente como quem sabe que o amanhã pode não bater a nossa porta. Com essa ciência, nos jogaríamos no mundo
Fonte: eumechamoantonio
 inadvertidamente e aproveitaríamos a vida em todas as suas nuances, cores e sabores, mas ao contrário, inadvertidamente esquecemos as lições do passado e passamos a vida com os olhos cravados em um futuro idealizado, míope, improvável. Sequer nos atentamos para a ideia de que nesta vida não vivemos tempo suficiente para cometermos todos os erros que nos proponha um aprendizado e, portanto, é um caso de sobrevivência que cada um de nós encontre a própria maneira de aprendê-los todos [ou alguns deles]. E não trata-se de uma questão de nos poupar tempo - cronologicamente falando - mas sim de ganhar VIDA, para que tenhamos mais tempo de ser, fazer, conhecer e reconhecer-se como uma pessoa que assim como todas as outras, também sofre e padece de suas dores, carrega medos infundados e é traída em suas convicções.

Recentemente uma amiga recebeu-nos em sua casa, um reencontro que muito bem poderia ser a celebração de seus quase dois anos de união matrimonial. E, também poderia ser o mesmo encontro uma solidarização com a dor da perda, outra amiga também presente, no mesmo tempo havia perdido o noivo com quem estava a mais de dez anos. Enquanto a primeira ouvia do padre quase que de maneira desleixada o “até que a morte os separe”, a última, vivia-o, sem ter tido tempo de vivenciar o ritual do casamento para ouvir ela mesma tal sentença “até que a morte os separe”. Mas a verdade é que estávamos ali para tão somente passarmos um tempo juntas, dar boas risadas e contar histórias de viagens que não deram muito certo, amores perdidos e encontrados. Foi assim que mesmo sem grandes pretensões, uma boa bebida e companhias excelentes fizeram o tempo parar. Momentos assim fazem-me sentir VIVA, momentos assim induzem-me a reflexão.

Na contramão destas uniões onde o “até que a morte os separe” parece realmente determinar o ponto final, estão os relacionamentos que obrigatoriamente tiveram que em um dado momento cada um seguir o seu caminho. Relacionamentos que sofreram antes da separação física a morte dos sentimentos.  Fisicamente eles ainda tinham um ao outro, mas há muito tempo eles não estavam mais lá, não caminhavam mais no mesmo ritmo, ela queria o mundo, ele, sem muito sucesso tentava prendê-la em seu mundo. Ele dizia, amo-te e ela dizia amar também. Sabiam-se amados, mas não sentiam-se assim. No sofá sentavam lado a lado, mas não juntos. Quando discutiam a verdade era a primeira baixa, diziam o que não estavam sentindo, mas sentiam que precisavam ferir tanto quanto experimentavam a dor. Mágoas passadas eram como se ferro em brasa a cutucar velhos ferimentos e abrir outras tantas novas feridas. Havia morrido o respeito. O amor havia sido sequestrado e nenhum dos dois parecia disposto a assumir o resgate. O que ainda faziam um ao lado do outro, se do lado de dentro não coexistiam mais?

Aprendi muito cedo que o caminho para permanecer no coração do outro passa necessariamente pela estrada da honestidade, generosidade e respeito. Mas parece que o amor é mesmo assim, respeita espaços arrombando a porta e desarrumando tudo, chega em momentos inoportunos, em “horas erradas”, não avisa, vai entrando, pode acontecer de você o encontrar na manhã de uma terça-feira apática, quando apanhada pela preguiça, sua companheira matinal você estará desarrumada e sem maquiagem.  Embora paciente, bondoso e gentil [*], o amor não é pontual.  

Mas é preciso estar recíproco a chegada do amor tanto quanto é preciso alimentá-lo, o amor não resiste só de palavras, ele necessita de atitudes para florescer. Ele não faz morada em corações imaturos, como pode um coração imaturo resistir as contradições do amor e os conflitos que dele nascem e nos fazem amadurecer. O amor não exige que você mude, perdoa-lhe os defeitos, compreende e discorda sem medo de ser mal interpretado. Mas não aceita máscaras, o amor gosta da verdade [*]. E quando descobrirem que o amor tudo crê, tudo espera e tudo suporta [*] descobrirão também que o amor não se irrita e não guarda rancor [*], mas que dizer “amo-te”, nada garante.    

[*] menção: I Coríntios 13

Shirley Basílio | 2 commentários

2 Comentários:

Nuh!!!

(Acho que me conhecendo como me conhece sabe que esse "nuh" expressa tudo aquilo que senti e não consigo traduzir em palavras ao ler o seu texto...)

Postar um comentário