HOJE, QUANDO PENSEI [...]

Viver a passagem do tempo é uma das, ou - a principal - consequência de estar vivo, e como tal, relativamente fácil, dar-se conta de que o tempo passou e você pouco ou nada se moveu, sim, relativamente frustrante. Não é que a gente deva andar sempre com um olho no retrovisor, mas de vez em quando contemplar o que ficou para trás é tão inevitável quanto às vezes é necessário. Foi em um desses muitos momentos de contemplação do passado que me peguei pensando em você, foi quando pensava em mim que sua ausência e tudo mais que ela representava se fez notar. Lembranças eternizadas em um e-mail, naquela fotografia meio fora de foco ou naquela mensagem em que você dizia apenas que 
iria estar lá.


Nos versos do poeta a história de um amor não vivido ganha asas, perde-se em sua imaginação de inventor e vai aconchegar-se no coração da bela e triste moça. No rádio, a mesma canção que fala de amores perfeitos, também lamenta os sonhos desfeitos e a tristeza escondida em grandes sorrisos. Orquestrada pela magia cênica dos palcos, como se fizesse parte do espetáculo, ela – a moça - embebida de uma vã esperança, aponta para o horizonte e caminha sob a chuva com os pés descalços – ela precisava sentir-se viva, na bagagem apenas o necessário, sapatos de viver e roupas de sonhar. 

Sem poder emprestar do poeta o encantamento pela vida em sua simplicidade, na poesia concreta do cotidiano falta-me a musicalidade dos versos tanto quanto me falta você. O que é real em mim é a saudade do que não vivi, a ausência do que não senti. Não morri de amor, não vivi a eternidade dos amores de verão. Sabe aquela sensação de estar perto mesmo quando se está longe? Não, são prozas que habitam um universo poético do qual não faço parte, são abraços que não cabem em mim. No meu mundo, nada permanece mais constante do que os inconstantes devaneios da solidão. Hoje, quando pensei em você, também senti saudades de mim. Hoje, quando pensei em mim, vi você com seus sapatos de sonhar e sua armadura de viver. 

Hoje, quando pensei em nós dois, pensei no quanto poderíamos ter nos esforçado para dizer um ao outro o que nossos ouvidos estavam ansiosos para ouvir, mas que nada, nos calamos, fomos covardes. Pensei nos inúmeros motivos que fizeram com que nossos olhares jamais se cruzassem além daquela primeira vez. E doeu saber que não fiz nada para encurtar a distância de um toque que nos separava. Hoje, quando pensei em nós dois, pensei nos sonhos que um dia você compartilhou comigo, e doeu saber que você seguiu com os planos sem mim, doeu saber que você seguiu em frente. Hoje, quando pensei em você, pensei que já era hora de viver sem pensar em você, e doeu constatar que há muito tempo você vive sem pensar em mim. Hoje, quando pensei em mim, sorri amarelo, joguei fora minhas roupas de sonhar... mas calcei meus sapatos de viver. 

Shirley Basílio | 3 commentários

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