MÃES-PIETÁS


Fonte: G1
Como uma mãe se sente ao abrir seus olhos neste dia de Eid e não ver seu filho perto dela?” [1] - A mãe em questão é Abir Shammaly que perdeu um filho durante o bombardeio em Israel. O dia a que ela se refere, é o feriado Eid al-Fitr, que marca o fim do mês sagrado do Ramadã, que no calendário mulçumano representa um dia de festa, de celebração. No calendário de Shammaly, será para sempre um dia de luto. “A nossa dor é intensa e implacável. Nós vivemos um inferno para além do inferno. Os nossos bebês não estão aqui conosco... Ninguém merece o que estamos a passar. Nem as pessoas que mataram a nossa família.”[2] – Estas palavras são de Anthony Maslin e Marite Norris, pais de três crianças australianas vítimas do voo MH17. “Quando meu filho apareceu em casa vivo, mas com um tiro no peito, comecei a pagar o caixão.[3] – O filho de Enilda da Silva foi executado pouco antes do Natal, em Fortaleza.

Idiomas diferentes traduzidos em uma linguagem universal, a linguagem da dor de mães que sobreviveram a seus filhos. E que vivem a inversão da ordem, não apenas da natureza e da lógica, mas a inversão da ordem ética e moral. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ mostrou que a probabilidade de ser assassinado é quase o dobro para os pardos e perto de três vezes maior para os negros. A pesquisa mostrou ainda que no Brasil, quem mais morre assassinado são os jovens negros e pobres. Mas quando o investigador redefine seu núcleo de observação, buscando a expansão de seu contexto para uma ordem mundial, percebe que a violência “gratuita” não reconhece idade, cor ou classe social. Estamos em guerra.

Evidentemente que em toda guerra há uma disputa ideológica. Em toda guerra há um inimigo. E em toda guerra há vítimas inocentes, civis - homens comuns, mulheres, crianças. Não importa o nome que lhe damos: civil, química, do tráfico, em uma guerra, sempre e em qualquer tempo serão os inocentes os primeiros sacrificados. Serão sempre os inocentes a pagarem o preço pela luta em nome de uma causa, de um direito ou de um país, - máscaras de uma ideologia a esconder seu verdadeiro motivo: a ganância e a desmesurada busca pelo poder.


Retornemos no tempo e na história, Mahatma Gandhi, o homem para quem qualquer tipo de violência era injustificada, lutou ativamente pela liberdade de seu povo e escolheu o caminho da não-violência, do diálogo, da resistência pacífica. Em sua guerra particular contra a miséria, Madre Teresa de Calcutá dedicou sua vida a ser uma gota de água no mar, com a compreensão de que o mar seria menor se uma gota lhe faltasse. Sem pegar em armas ambos lutaram e sem curvar-se ante a tirania de um governo ou da maioria de um, foram vitoriosos – cada um a seu modo.

Um médico missionário disse uma vez, “o propósito da vida humana é de servir, de mostrar compaixão pelos outros e de ajudá-los.” Mas... você olharia uma criança órfã nos olhos e lhe falaria de compaixão? Você olharia nos olhos de uma mãe com os pés sujos de sangue por caminhar descalça entre os escombros do que sobrou de sua casa e lhe falaria sobre o propósito de servir? – Certamente uma mãe que acabou de perder seus três filhos em um “acidente aéreo”, falaria com você sobre o amor. Certamente uma mãe que acabara de perder todos os seus bens, falaria com você sobre a origem da força dos recomeços. Certamente uma mãe que acabara de perder seu filho para a guerra do tráfico, falaria com você sobre como sobreviver em meio ao caos que há no mundo.

Sim, temos o direito e até mesmo o dever de resistirmos ao mal que nos assola, e é possível fazê-lo sem o propagarmos ainda mais. Mas é preciso que seja agora. Claro, é mais fácil criticar aqueles que escolhem o diálogo como caminho do que ser o cara a forçar o diálogo. É mais fácil apontar as falhas nas ações dos outros do que assumir a liderança pelo movimento. É muito mais fácil indignar-se com a guerra segurando o controle da TV do que promover a luta pela paz em sua própria comunidade.

Afinal, quem somos nós para sucumbirmos silenciosamente a esta escalada da violência que nos devasta, um dia após o outro? E são novamente as mães - representação máxima do que é capaz a força do amor, a nos dar a resposta, a nos mostrar o caminho, a nos conduzir para além das relações de poder e da lei do mais forte, mas para o que caracteriza em nós a liberdade plena de ação: o amor maior que o ódio. Amor que exige coragem, que exige capacidade de superação, que exige movimento. Amor que vence o medo e a inércia. 

[1] Fonte: Reportagem G1[2] Fonte: Reportagem R7[3] Fonte: Reportagem Revista Época

Shirley Basílio | Nenhum Comentário

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